segunda-feira, 25 de maio de 2015

O mundo acabou

Que maravilha
Não mais pensar que
Ele acabaria
Agora sim
Voltarei a viver
Quem sabe até...
Sonhar outra vez
O mundo acabou
E com ele se foi...
o prenúncio do fim
E da notícia triste
Quantas horas perdi
Da minha vida pensando
Que morreria...
Que sorte a minha
Nunca mais verei
A previsao da catastrofe
Nunca mais serei mais
um fantoche de todos os dias

O mundo acabou
Que lindo fim
Finalmente um final feliz
Pra você e para mim.

Estreando como brincantante


https://youtu.be/SZ96Tx_t-jM

terça-feira, 21 de abril de 2015

Fiu Fiu... Pode?



Um dia perguntei a uma adolescente o que ela achava dos rapazes da sua escola.

Para minha surpresa ela mal olhava para eles. Sugeri que, naquela semana ela  prestasse mais
atenção. Em pouco tempo a adolescente havia estreitado sua relação com os rapazes da escola.

Essa experiência me convenceu de uma coisa, nossa existência se dá onde debruçamos nosso olhar.


Assistindo a uma entrevista da escritora e feminista Clara Averbuck, me senti  extremamente tensionada ao ver o comportamento da entrevistada.  Os olhos e a voz  dela pareciam uma bazuca prestes a atirar no primeiro homem que passasse a sua frente. Eu, particularmente, entendo as razões do comportamento belicoso de qualquer ativista. Mas, naquela ocasião, a postura da entrevistada me pareceu desproporcional.

Concordei com a maioria das suas colocações,  eu também enxergo esse mundo machista em cada esquinaonde passo. Percebo a guerra velada entre os sexos nas organizações e tantas minúcias do cotidiano que passam despercebidas pela maioria das mulheres.  Mas não concordei com um ponto da entrevista, apesar de compreender o fundamento, foi a tal história do "fiu fiu".

A entrevistada explicou que os homens  não têm o direito a expressarem o  " fiu fiu"  às  mulheres que porventura achem interessante na rua. Segundo ela, seria como se eles estivessem emitindo uma opinião sem terem sido perguntados. Seria assim: - Fiu fiu! E ela responde: - Qual é, mané? Não te perguntei se eu sou gostosa!?

Sejamos francas e humanas, eu, aos meus 44 anos de idade, entre tantas mudanças de vida impostas, sobretudo por questões hormonais, sei que toda mulher quando muda de corpo se obriga a mudar um pouco de alma. E a mulher oscila demais, um dia ela está bem, no outro se sente um nada na frente do espelho. Num dia nos sentimos aos 44 do primeiro tempo, e isso é ótimo. Mas, em outros momentos, somos invisíveis para nós mesmas, que nem um gol no final do jogo nos salva![D2] 

Ano passado, viajando sozinha a Lisboa, eu caminhava pelo centro da cidade e me vi surpresa com a minha surpresa ao receber um cortejo publicamente. Achei muito diferente e confesso que apreciei! Em geral,  as mulheres reclamam de um 8 ou um 80 neste quesito. Ou seja, ou o homem exagera ou ele simplesmente ignora demais.

Hoje pela manhã saí para correr numa avenida bem movimentada. Geralmente passam muitos carros, e notei algumas manifestações que em nada me ofenderam. Então lembrei a entrevista da feminista e fiquei pensando se era para eu me ofender ou não, ora bolas, eu não me ofendi. Automaticamente me senti culpada por não ser a mulher analítica e intelectual de sempre. Naquele momento, eu era apenas uma mulher que estava envaidecida e  pensando no tal "fiu fiu".

Na volta da corrida, e querendo ainda me eximir daquele sentimento de vaidade, resolvi observar quem fazia o tal "fiu fiu".  Não foi surpresa ver que eram os homens, aparentemente menos intelectualizados,  os mais "saidinhos". Isso me lembrou aquela piada infame,  que se você está deprimida deve passar em frente a uma obra para receber um "fiu fiu".  Francamente! Esse tipo de coisa é também preconceituoso! Com a mulher? Não!  Com a categoria da construção civil!

Mas aí eu fiquei pensando se este  homem não seria mais natural? Olhou, sentiu, expressou.  Do ponto de vista feminista,  não chamaríamos de espontaneidade. Seria o tal bicho-homem, sem educação, mal-educado, troglodita, machista, autoritário, invasivo etc.
Mas será que não estaríamos categorizando demais?

A feminista afirmou em seu blog, após uma entrevista ano passado,  que não vivemos mais numa poesia de 1963 nas calçadas  de Copacabana. Ela se referia à famosa música " Garota de Ipanema". Porém, fiquei pensando se naquela época o machismo não imperava muito mais, creio que sim!
E vejam vocês! Mesmo assim " eles" fizeram poesia!!! ???

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Rosas Toscas


Esta parece uma daquelas histórias de comédia romântica, onde as amigas da noiva se reúnem para ir a um casamento fora da cidade e muitas situações inusitadas ocorrem.
A noiva promoveu um encontro e apostou nesse grupo de mulheres. Todas ficariam na mesma casa, dividiriam o mesmo carro, enfim, tinha tudo para dar errado! 
Ninguém se conhecia o suficiente para dividir casa, comida e transporte.
Quatro totais desconhecidas se aventurando na Praia do Rosa para ver a amiga querida se casar.
Tudo certo, vamos à viagem...
A primeira prova de que iria funcionar esse quarteto, foi o ar condicionado que não ter funcionado,  justo no engarrafamento da BR 101. Foram mais de duas horas num calorão dos infernos, e o papo rolando frouxo.
O assunto da viagem, alguém imagina? Sim, homens! E tudo girando em torno de como reagir como uma perfeita donzela, a fim de não afugentá-los.  A motorista do grupo sacou um livro daqueles que eu tremo nas bases quando vejo.  Livro do tipo: deixe que ele faça, deixe que ele comande, deixe que ele escolha... e assim você o conquistará!
Eu tenho verdadeiro asco daquele último lance de desespero no final de um segundo tempo sem gol! 
Mulher que tem que se fazer de sonsa... Pra pegar marido???  Vergonhoso!
Uma das amigas, diga-se de passagem, linda, inteligente, relatou que os homens tem receio dela. 
Sabe aquela velha história que a gente já sabe, que o certo é fingir para fisgar?
Em resumo: negue sua inteligência, negue sua independência.  
Aliás faça como a música, "pise machucando com jeitinho" em tudo que você aprendeu a ser para sobreviver! 
Um dia um cara chamou a nossa amiga de "tosca".
Caímos na gargalhada porque realmente, o termo era muito divertido. Mas denunciava um defeito...
Ela não sabia ser mulherzinha.  Enfim, ela era independente demais! 
Passamos o final de semana inteiro aconselhando a pobre tosquinha. 
Contudo, nos demos conta de que cada uma de nós sofria de um certo grau de tosquice.
O maldito livro recomendava ainda recomendava: dê algo para ele fazer, faça com que ele se sinta útil, protetor, eficiente, macho, viril, poderoso. 
Puxa vida! Ninguem merece tanto controle de variáveis. Sem falar que parece que este homem é um inseguro que precisa sempre ser validado, incentivado!
Ao mesmo tempo, qual a medida adequada de tosquice? Estaríamos certas ou erradas?
Como não seriamos toscas? Como fingir que não termos opinião, e que não sabemos o que queremos? 
Enfim, como não abrir a porta do carro para o homem entrar?!
De volta à Porto Alegre, pegamos uma estrada alternativa, e seria quase uma aventura.
Mas estávamos ali firmes e fortes, agora amigas! 
E prometemos para nós mesmas que seríamos mais Rosas e menos Toscas!
Eis que no meio do caminho, percebemos que estávamos perdidas. 
Perguntamos para um senhor, qual seria o caminho e ele respondeu: - Olha vocês vão ter que voltar e passar pela ponte que pegou fogo... (?) Como assim? Perguntamos.
Ele explicou: - Não se preocupem porque,  se eu varo com minha camioneta, vocês varam também! (?)
Varar? Deixa quieto trancamos o riso...
Demos a volta e seguimos a orientação, só pensando... “ ponte que pegou fogo? ” e que raio de verbo é esse? Varar?? Bom, mas se o velhinho disse que ele passava. Então a gente vai passar!
Morremos de rir da situação, até chegarmos na ponte...
Como eu havia imaginado, a ponte estava preta feito carvão, mas uma parte, ainda que ruim, era transitável.
A nossa motorista, parou o carro atônita. Eu imediatamente calcei o tênis e desci para  averiguar a situação. Mal abri  a porta, me deparei com a tosquinha dorminhoca que num impeto já pulava na ponte testando sabe-se  lá o que com o peso leve dela! 
Eu me postei na parte trafegável e já ensaiava a coreografia do flanelinha, “mais pra esquerda, alinha, por aqui...”  E a tosquinha mais meiga e zen, nos surpreendeu. 
Saiu no verbo encorajando a nossa motorista, “ se tu não passar, eu passo!”
A nossa motorista era aquela que o cara chamou de "tosca"! 
Era óbvio que ela passaria aquela ponte! Ufah! 
Entramos no carro às gargalhadas!
Perceberam onde ficou a teoria? Queimamos na ponte!


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Bubbles

Peter Van Pels e Anne Frank
Será que um dia esqueceremos o verdadeiro encontro?
Hoje eu realmente me preocupo muito com este assunto. Mas admito que na minha adolescência, esta era a menor das minhas preocupações...

Aos 13 anos, eu teria o meu primeiro encontro com um livro, “O Diário de Anne Frank”. Anne tinha 13 anos quando começou a escrever seu diário, infelizmente numa condição inóspita de confinamento na Segunda Guerra Mundial. Passados mais de quarenta anos, quem diria que eu e Anne nos tornaríamos cúmplices do mesmo amor? Enquanto ela descrevia sobre o seu amor por Peter, eu me apaixonaria por aquele menino do livro que surpreendentemente eu encontraria nos corredores da minha escola nos anos 80!

Não foi difícil reconhecê-lo, mesmo porque Anne o havia descrito minuciosamente para mim: "Ele tinha cabelos escuros, olhos castanhos lindos, bochechas rosadas e um nariz encantadoramente pontiagudo”.
E lá estava Peter ao alcance dos meus olhos e do meu coração. Peter nunca soube da minha existência, até porque não era necessário, ele já existia para mim, mas no fundo sempre foi de Anne...
David Vetter
Muitos meses se passaram entre olhares jamais correspondidos.

Sem que eu soubesse, naquele mesmo ano de 1983, os pais de David Vetter, lutavam para manter o filho vivo. Após 12 anos confinado em uma bolha de plástico, que o mantinha livre de contaminações, os médicos vislumbraram uma alternativa de cura para sua doença.  David nasceu com uma deficiência imunológica rara.  Em 1984, fez um transplante de medula dentro da bolha, mas devido a complicações em seu pós- operatório, foi retirado da bolha e acabou morrendo.

Infelizmente, a vida não imitou a arte.

Quando David tinha 4 anos, sua  história já era conhecida e  inspirou um filme marcante nos anos 70,  “O menino da bolha de plástico”. Apesar de uma história tocante e triste, o menino Tod,  interpretado pelo estreante, John Travolta, consegue sobreviver na bolha até a adolescência e apaixona-se pela sua vizinha, razão pela qual deseja viver em sociedade.

Assistindo a uma reportagem do ano de 1976, sobre o caso de David, um médico responsável pelo caso, chamou a bolha de plástico de David de “ilha da vida”.

Ilha da vida? Segurei a expressão e não consegui largá-la.
Conforme relatos daquela época, na verdade o menino temia sair da bolha e morrer e, na puberdade já começava a  apresentar  um comportamento de revolta pela sua condição.

Se pensarmos, Anne Frank também viveu confinada numa espécie de bolha quase que inevitável.   Ambos estiveram confinados em bolhas de proteção contra a morte, mas que na realidade os impediram de viver.
Não tenho dúvidas de que meu amor platônico serviu de ensaio para os amores reais.

Mas e o nosso adolescente “new platonista” da era virtual, teria a mesma sorte de encontrar seu amor virtual nos corredores da escola?

O que dizer do adulto em tempos de múltipla escolha?
Teria coragem de romper a bolha que lhe garante plena autonomia?
E aqueles que se mantêm unidos, coabitando em suas bolhas high tech, estariam  livres das “contaminações” do cotidiano?

É inquestionável que as bolhas de Anne e David os mantiveram vivos, mas essas supostas proteções estão longe de serem chamadas de “Ilhas da Vida”.
Infelizmente, as bolhas não os preparam para a vida, apenas adiaram seus finais.
A morte para Anne, Peter e David ocorreu fora da bolha, mas isso não é regra.
Hoje o que me impressiona são as bolhas autofágicas que se encerram em caracteres digitados e imagens alteradas. Será que um dia esqueceremos o toque da pele? Como lembrar algo nunca vivido?
O virtual nunca substituirá o toque, o calor do rubor e o frio na barriga que invade pela lembrança do amor presenciado.

Exaurida de tantas bolhas de plástico, preferi me lembrar das bolhas de sabão! Que bom poder recordá-las! Bolhas feitas de fluidos. Bolhas de ar, leveza e colorido. Bolhas que se elevam! Bolhas fugazes que brilham e explodem no tempo e no ar. Bolhas que se multiplicam! Bolhas que surgem de um sopro de vida. Bolhas que nascem do sopro no ar!



domingo, 16 de março de 2014

Planeta das Beldades


Imaginem a cena: mulher linda atravessando a rua, vestida com uma roupa impecável, cabelos bem cuidados, pele bonita, maquiagem perfeita. Ela faz  menção de atravessar a rua, olha para o sinal, desiste e perde-se no próprio olhar. Antes de eu passar com meu carro, verifico a dissonância daquele olhar e concluo a meu modo:
“Mulher bonita não combina com um olhar triste”.
Ok! Me dê alguns minutos para que eu me explique.
Imagine um planeta cheio de beldades se sentindo feias. Magras se sentindo gordas, jovens se sentindo velhas, espertas se sentindo tolas.  Enfim, todas se sentindo insatisfeitas consigo. Comecei a acreditar que vivo nesse planeta, o qual, segundo alguns homens de outros planetas, as beldades brotam da terra!Dizem que há mais mulheres  do que  homens, mas já me disseram que o problema é que eles morrem em massa entre 18 a 25 anos.  O resultado dessa desigualdade, é que lá na frente teremos 10, 15 ou até mais mulheres para cada homem. Eu particularmente não acredito nesse  “termômetro da noite” ,  pois é inegável que as mulheres são mais sociáveis, gostam de se reunir, portanto, vão se encontrar inevitavelmente aos bandos na noite.
Enquanto isso, e em menor número, os homens saem menos, são mais tímidos. Além disso, contam com o consolador “PFC”,  Playstation, Futebol e Churrasco.
Mas e as beldades? Creio que vivem  num contexto de tragédias confluentes: lindas subnutridas de espelhos quebrados X bonitinhos supernutridos de espelhos distorcidos.
O planeta das beldades vive repleto de insatisfações balizadas por modelos tão conservadores que, na menor das desilusões, lá está um corpo feminino jogado na primeira lixeira da esquina.
Mulher bonita  nesse planeta, em geral, tem uma péssima autoestima!
Enquanto isso os machos no planeta das beldades elevam seu passe de todas as formas. O   gordo, o velho, o tolo, todos pegam! E se pegam, para que esforço? Oferta grande, preços baixos, consumidores empapuçados! Apesar do mercado aquecido, ainda topamos com alguns caprichos, como a importação do recato.
Em resumo, não basta ser bela, é bom ser quase uma virgem.  Ah, não estão acreditando? Um dia escutei de um rapaz de 30 anos o seguinte: aqui (na capital das Beldades) as mulheres não valem nada! No interior, elas são mais recatadas...
Quanta bobagem!
O panorama é o seguinte, algumas exigem muito, outros exigem mais do que realmente podem bancar, e outras não exigem nada! Aquelas que não exigem, inflacionam  o mercado e impõem um jogo que ainda não tem uma regra clara.
Mas e os impactos desse contexto? Alguns efeitos dessa dissonância são visíveis, homens pouco vaidosos e mulheres biônicas gastando os tubos no salão de beleza. Algumas desesperadas;  outros confusos e inseguros. Uns tontos, se perdendo de tanta oferta, mal degustando, mal conhecendo e prontos para o descarte. Elas distorcem, se humilham, se vingam,  se desvalorizam e, com o tempo, vão entristecendo o olhar.
No planeta das beldades, a disputa acaba com as amizades entre as mulheres e, sobretudo, acaba com o amor próprio.
O problema é que muitas beldades desesperadas se lixam para a ética! Passam por cima das amigas e não vêem diferença entre homens solteiros e casados.
Pobre de algumas beldades, agonizando nesse planeta desigual!
O espelho da beldade mostra tudo, mas não convence. A cada lugar uma beldade mais linda, mais perfeita.
E como explicar que a mais linda de todas as beldades se sinta sozinha? Tadinha, esmola, quando é demais, o santo desconfia, e o pior, o santo não  banca.
Viver no planeta das beldades sendo mediana arrumadinha é como ser a mulher invisível daquele filme brasileiro, com a vantagem de que o protagonista nem precisaria se esforçar muito para imaginar. Aliás, se ele se esforçasse um pouquinho, certamente teria que fugir para debaixo da cama, pois não daria conta da multidão de mulheres invisíveis...
Ah! Boa pergunta! Será que eles estariam dando conta dessa multidão?


Uma Rua e Cem saídas



 se 

Uma Rua e Cem Saídas
Cláudia Coelho
Final de semana passado, eu dirigia rumo ao aeroporto e percebi uma cena inquietante. Havia famílias reunidas no meio-fio do corredor de ônibus, algumas crianças andando de bicicleta, mulheres e homens correndo no asfalto. Bacana essa cena, não fosse o local! Um corredor de ônibus fechado disponibilizando aos frequentadores daquela área nada mais do que o asfalto, monóxido de carbono, pista livre e segura aos pedestres. E, como se não bastasse, “um lugar ao sol” àqueles que pretendiam se bronzear.
Fiquei imaginando uma daquelas pessoas descrevendo o seu final de semana:  “ Foi superbom lá no corredor de ônibus, nos divertimos muito!”. Mas será que elas não teriam alternativa melhor? Pela  lógica, aqueles que possuem melhor poder aquisitivo deveriam ter mais opções de  lazer. Como alguém que mora num bairro nobre de Porto Alegre poderia se contentar em passear num corredor de ônibus aspirando monóxido de carbono? Nem em São Paulo eu aceitaria essa opção.
Eu me vi sem saída para explicar aquele fenômeno e me reportei imediatamente à Rua C, como era chamada nas décadas de 70 e 80. Ainda pode-se dizer que é uma rua tranquila, mas era muito mais no passado. Ao contrário daquele corredor de ônibus cravado numa avenida tumultuada, a Rua C oferecia  um sem número de possibilidades e entretenimentos. 
A Rua era tão pacata que estendíamos uma rede de vôlei de uma calçada a outra. O jogo de taco também era realizado com latas de azeite enfiadas nos pequeninos buracos da rua. Ao fundo, tínhamos uma espécie de parquinho natural, era uma “saibreira” que acolhia nossas expedições em grupos, além de muitas histórias misteriosas relembradas até hoje.
À noite, a Rua C abrigava penumbras mágicas perfeitas para o esconde-esconde. Os patins viravam sapato e tinham as rodas desgastadas das calçadas inapropriadas, mas que eram perfeitas para as meninas jogarem sapata.  A brincadeira de corda não podia ser melhor quando espichávamos a corda de uma calçada a outra e rolávamos de rir quando o foguinho testava os mais rápidos no pulo.  A Rua C adorava ver crianças  jogando  bola e passeando de bicicleta com cata-ventos de seringueira pendurados no guidão. 
Dia de chuva não podia ser melhor, tomar banho de chuva, escorregar nos pisos lisos das casas, dar risada dos tombos, torcer para a rua alagar! E, quando a chuva parava, a brincadeira seguia. Corríamos para os filetes de água no meio-fio da calçada com nossos barquinhos de papel para ver quem chegava primeiro no bueiro insólito.
A Rua C não cabia no calendário de tantos aniversários, e, para sorte da criançada, as quituteiras da rua sempre foram maravilhosas. O barulho das festas na rua nunca foi motivo de desavença, até porque  os vizinhos sabiam que, no futuro, também fariam seu barulho de festa, sempre foi assim.
A Rua sem saída era uma rua que acolhia diferenças sociais, dramas familiares, mas também muitos amores. Amores juvenis livres de qualquer preconceito, amores que  viraram casamento e outros que não passaram de um beijo.
A Rua C, não julgava, mas, por vezes, se ressentia com a severidade de alguns pais e com a indolência de alguns filhos.
Mas a Rua C também chorou muitas vezes.  Apesar de ser uma rua de paralelepípedos desiguais, o trânsito, sem cintos e muito álcool, tirou a vida de muitos amigos. A Rua C lutou pela vida de muitos que se acidentaram, e venceu,  mas perdeu  quando a medicina ainda não encontrava a cura. 
A Rua C debutou com as meninas que se tornavam mulheres. E vibrou com as labaredas das fogueiras de São João e a dança do pau de fita nas escolas da redondeza.
Alguns podem achar  que essa rua nunca existiu, pois eu a vejo dessa forma. E hoje, de fato, ela não existe mais, a Rua C ganhou um nome difícil de um ilustre médico, mas pouco conhecido. Ao contrário da Rua C, de tão escondida, parece ficar na memória de quem a conheceu: “Ah! Aquela Rua sem saída?”.  
Sem saída? Creio que não. A Rua C ofertou cem saídas para suas crianças, mil maneiras de ensinar seus adolescentes e infinitas formas de se reinventar para os seus adultos e idosos.
Eu confesso que, na minha infância, sempre sonhei que a Rua C só iria crescer quando fosse asfaltada, mas isso nunca aconteceu.  Mas, se essa rua fosse minha...
“ Eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes...”