domingo, 1 de setembro de 2024
INICIO, MEIO E FIM
Algumas histórias levam algum tempo para serem contadas...
Aos 28 anos de idade, conheci João. Foi numa viagem para a Bahia. Vivemos uma semana maravilhosa, isso foi em 1998. Eu trabalhava muito, e era a minha primeira viagem de férias depois de um longo tempo de labuta. Eu trabalhava feito bicho como se diz. E foram muitos finais de semana e feriados em ritmo frenético, eu não tinha tempo para nada além do trabalho, muito menos conhecer alguém ou ter um namorado.
Viajei para a Bahia numa completa exaustão e muito carente, sem saber que era muito carente rsrs... No segundo dia de praia, dei de cara com um moreno, sorrisão lindo. Me joguei intensamente naqueles dias, pois sabia que teriam um fim...
Pausa na história, eu nunca tive muito medo de viver histórias fugazes, com início, meio e fim, eu sempre tive vontade de viver o melhor que tivesse disponível no momento, acho nessas ocasiões eu nunca tive medo das despedidas.
Lembro quando me despedi de João, imprimi uma foto numa lojinha da cidade e escrevi atrás "um beijo para toda a vida"
Era um beijo para nunca mais. Nunca mais mesmo! Foi bom, João, mas acabou. Vai doer, eu vou sofrer, mas vai passar!
Até porque ele morava numa cidade a 1500 km da minha...então, óbvio que era inviável.
Voltei despedaçada, coração dolorido. Cheguei do aeroporto na minha casa e, para minha surpresa, um cara chamado João tinha me ligado...Fiquei surpresa. Oi??? Como assim? Eu me despedi para nunca mais, ele não entendeu? Olha que louco, eu sofrendo a partida e refutando aquela ideia.
E foi assim o início de uma relação à distância e muito intensa. Depois do encontro na Bahia, fui para a cidade dele, e ele veio até a minha, algum tempo se passou, e um dia ele me ligou chorando muito, mas pensa muito! Era um choro de desalento e desespero, dizendo que não poderíamos ficar separados, que eu era a mulher da vida dele, e que a gente precisava resolver aquilo, que precisávamos ficar juntos, que ele me amava mais que tudo na vida. Nossa!
Hoje eu percebo que eu havia me apaixonado por todo aquele amor expressado.
Mas como resolver? Ele tinha duas filhas e eu comecei a me convencer de que, para ter a minha família com ele, eu teria que morar na cidade dele e deixar tudo, inclusive meus dois empregos.
A minha sorte (ou azar...) é que, naquela época, eu tinha uma grana de participação dos lucros de uma empresa para receber. Seria um bom valor por, pelo menos, um ano sem ter que me desesperar procurando emprego lá.
Sempre digo que, sem ter essa condição, eu não iria, era tipo assim: vá, mas não dependa de ninguém, se não funcionar, você volta.
Eu vivia aquele turbilhão de emoções, convencida que seria feliz com ele e, para mim, seria pior nunca ter ido a ter que viver a amargura de uma dúvida.
Eu fui, e rapidinho quebrei a cara.
Em menos de um mês, o homem que me inundou da mais linda luz de amor... foi o mesmo que me colocou num porão tão escuro, que eu mal me enxergava.
Por 9 meses, vivi tudo de ruim: tristeza, raiva, frustração, silêncio, impotência, crueldade, desamor... e uma depressão que me acendeu a luz da racionalidade:
Eu precisava desistir daquilo, ir embora e voltar a ser eu...
Quando lhe comuniquei da minha decisão, ele foi a uma floricultura e comprou o mais lindo buquê de rosas vermelhas e me pediu para recomeçarmos.
Recomeçar? Mal começamos, João?
Olhei para ele com os olhos ressecados e disse que não.
Ele, com raiva e chorando ao mesmo tempo, me disse: como você é insensível! E eu, ainda espantada com aquela cena contraditória, respondi: João, passei 9 meses chorando muitas noites ao teu lado, e você nunca me perguntou o que estava acontecendo, e o pior, quando acordávamos, você apenas comentava: como você tem- se resfriado nestes últimos tempos!
E completei: João, mesmo que você chore muito neste momento, nunca chegará a 1% do que eu chorei nestes 9 meses.
Meus caros, vou descrever João em poucas linhas: ele parecia que brigava sozinho, não era ciumento, mas ele odiava meu jeito de conversar com as pessoas da cidade, quando se irritava comigo por algo que não sabia exatamente qual o motivo, ele ficava mais de uma semana sem me dar uma palavra...sem uma palavra. Silencio total. Total! "Tratamento de Silêncio" como eu vi outro dia uma mulher contando uma história parecida com a minha.
João agredia suas filhas na minha frente, me obrigando a defendê-las constantemente, e assim fez com que eu jamais desejasse ter filhos com ele. João detestava barulhos e cheiros específicos, observava cada talher que não estava limpo como achava que deveria estar. João tinha ataques de fúria na frente de meus familiares e podia largar o volante do meu carro no meio de um passeio, por algo que eu não percebia que eu tinha dito e tinha desagradado a ele. João não se importava em parecer gentil, e por isso minha mãe e minha irmã não precisaram de muitas cenas de fúria para concluir que eu estava numa enrascada.
Eu só pensava: Meu Deus, eu nunca fiz mal a ninguém, porque estou vivendo isso?
Até hoje, a oração da Ave Maria me lembra as infindáveis noite que rezava até conseguir dormir...pedindo que o próximo dia fosse de paz.
A paz não veio, e um dia foi a gota d água... Eu não aguentava mais odiar João... Chamei minha irmã para fazermos a mudança. Pedi a João que me ajudasse a ir embora...ele ajudou...acho que foram as minhas orações. Vendi tudo que havia dentro da minha casa para pessoas estranhas, e até vendi aquilo que nem tinha aberto, presentes de casamento de queridos amigos e familiares. Eu não poderia voltar com tudo que ganhei, e foi uma faca pontiaguda dentro do meu peito, ver aquelas pessoas entrando na minha casa e olhando as minhas coisas e pedindo o preço até do que eu não iria vender ...elas foram levando os pedacinhos do meu sonho.
Eu e minha irmã e meu cachorro saímos numa madrugada de chuva torrencial para enfrentar 4 horas de viagem numa estrada que na época estava em reformas...foi um verdadeiro pesadelo. Quando cheguei em Porto Alegre, o saldo era amplo e irrestrito: um corpo que não se nutria mais, um dente trincado fruto da tensão, o rosto cheio de melasmas...e um sentimento de que tinha sido resgatada de um longo e cruel sequestro...
Saí sem dever um tostão, deixei na casa móveis de interesse dele para compensar o aluguel do mês e uma conta do telefone residencial...minhas amigas me chamaram de trouxa. Sempre me recordo quando avistei a minha cidade novamente, e o telefone celular tocou dentro do carro. Era João: "Oi, tudo bem? Você parece feliz..." e eu, em choque, respondi ironicamente, " sim, estou radiante, João !" Tá de brincadeira? Um mês se passou e João ligou para minha casa: " Oi, Claudia, é sobre a conta de telefone...". E eu, atônita, à espera de um perdão... Respondi com toda a calma. " Paga essa conta João, ela certamente tem um custo menor do que toda a falência emocional que você me causou, paga essa conta, João e vai pro quinto dos Infernos antes que eu me esqueça!". Dez anos se passaram daquele telefonema... E um dia abri o meu e-mail e havia uma mensagem de João com um pedido de perdão... comecei a contar nos dedos...dez anos! No final da mensagem, a última frase de João: "Podemos ser amigos agora?" Respondi: Não.
Revisao: Deliamaris Acunha
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