segunda-feira, 29 de julho de 2024

A gente quer tudo?

Deve ser a idade, mas parece que o mundo real está tentando recriar eventos aos moldes da virtualidade. Me deparo com eventos artísticos que me intrigam, ainda mais agora que procuro conciliar uma microfonia no ouvido direito e os sons que se misturam. É mais ou menos assim: piano nas notas mais altas, latidos de cachorros, crianças falando ao fundo e cantoras soprano são sons que se sobressaem para mim.. Tudo se mistura, assim como este assunto, mas no fundo, é sobre isso mesmo que eu quero falar. Sobre os excessos… Excessos de sons do meu ouvido, da virtualidade e de alguns eventos, chamados cult, performáticos, interativos, colaborativos… Sobre estes últimos, eu penso… É cansativo…esse jeito pra mim é over na hora do lazer, da cultura, da música, da pintura, são muitos estímulos ativados: visuais, sonoros, gustativos, olfativos… e parece que é bom ser desse jeito, que isso que é bom. Será? Cláudia, tu tá ranzinza… quem é tu pra falar disso, cara pálida geminiana multifuncionalidade? Sim, eu não sou perfeita, ouso fazer mais que uma coisa ao mesmo tempo. Recentemente, cometi o absurdo de ler no Kindle ao mesmo tempo que fazia crochê, me senti vitoriosa com a minha capacidade, ou seria pura voracidade? Quando penso neste assunto, sempre me lembro de um voo que fiz de Lisboa ao Brasil, em 2014. Eu viajei ao lado de um japonês mega agitado que, antes de o avião decolar, já mastigava um sanduíche trazido dentro da bolsa. Entre uma abocanhada nervosa e outra, ele armava um acampamento à sua volta. Primeiro ele abriu o laptop, depois ligou a TV, colocou os fones de ouvido gigante, e futricava no celular, não satisfeito, ele conseguia se esgueirar pro meu lado, curioso nos filmes a que eu assistia na minha TV. Que agitação! Eu fiquei cansada só de ver aquela maratona cerebral acontecendo. Pensei, meu Deus, que cara fominha? Ainda quer assistir filme comigo? rsrs Após 10 anos dessa viagem, percebo que aquele era o futuro…sim, o nosso futuro, o meu, o teu, do mundo! Parece que a gente tá sempre querendo aquele Xis Tudo toda hora. Enfim, lembrei de tudo isso, porque me deparei olhando os stories de um casa noturna que divulgava dois eventos de Live Paiting com shows, etc e tal… Dois!? Não é muito? Pausa: lembrando que eu amo pintar, acho lindo eventos na rua com artistas urbanos, djs, comunidade… Sei que é também uma excelente oportunidade para artistas divulgarem seu trabalho…tudo certo. Voltando… Desculpa, mas me cansa Show Xis Tudo…até esse texto tá somando exemplos, rsrs. Já não basta ter que dar conta de tudo na vida? Trabalho, conta para pagar, estudo contínuo, saúde, eventos sociais e familiares…unhas sempre feitas? Quer outro exemplo ou tá demais já? Só mais um! Outro combo que parece o canto da sereia, porque sim, é lindo, é poético… E eu amo gastronomia e cinema. São aqueles eventos gastronômicos, com um chef famoso, que elabora o menu a partir de um filme que vai ser exibido, finalizando com um bate papo depois do rango, tudo para “harmonizar” o momento… desculpa, isso me desarmoniza a alma…é aquela frescurada carésima com queijo Brie, sabe? Eu quero poltrona no cinema, descanso depois do jantar e bate papo no boteco. Eu disse que ia ser o último exemplo, mas juro que finalizo agora. Me lembrei de quando fui a Salvador e entrei naquelas lojas gigantes de artigos de artesanato local. Andei, andei e olhei e não comprei nada…não consegui, lotou meu HD tudo aquilo. A gente quer tudo, como se todos os sentidos pudessem dar conta… mas a verdade é que a gente tem limite! Não é de se admirar que as pessoas reclamam que a memória tá pifando, o sono tá zoado, o sentimento é de não dar conta de tudo, de estar espremido no tempo e de uma constante frustração. Quer saber? Não sei se eu quero me harmonizar com a comida do filme ou com a pintura e a música, ou com o japonês esfomeado por tecnologia e sanduiche amassado na bolsa. No fundo, só queria ver e escutar, de fato, e sentir as coisas a seu tempo, às vezes, até em slow motion…e não como um rolar de feed do Instagram, que já faz tempo que prefiro ver sem áudio. Calma, nem tudo está perdido para mim, essa fórmula de juntar tudo no mesmo tempo e espaço me lembra algo que, de fato, aprecio muito: os Saraus. E Porto Alegre tem a sorte de ter o icônico Sarau Elétrico que, aliás, está fazendo 25 anos. Lá a atenção está na leitura dos textos, tudo demarcado…e a canja musical é no final. Tudo lindo. Gosto disso… Gosto dessa harmonia que deseja não somente servir tudo que tem, mas que deseja a escuta e o olhar qualificado do espectador… Será que é querer muito?

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