sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Um flash de Vida

Certa vez subloquei uma sala ampla na zona sul da cidade. O lugar era fantástico, uma construção que se instalava na companhia de uma figueira imponente, no térreo, uma academia. E no primeiro andar, onde eu atendia meus pacientes, havia trocas de Reiki, cursos dos mais diversos na área da espiritualidade promovidos por uma querida amiga reikiana. Um dia, enquanto eu aguardava um paciente chegar, chamou-me à atenção um armário que sempre se mantinha fechado, mas que, naquele dia, estava entreaberto. Imediatamente, num impulso quase obsessivo, fui fechar a porta do armário. Ato que mantenho preservado por conta dos dizeres da minha avó, que afirmava que portas de guarda roupas não podiam ficar abertas por que espíritos poderiam se abrigar ali... Será que ela estava certa? Apesar do meu esforço, a porta do armário insistia em ficar entreaberta, foi quando meus olhos gemianianos pularam para dentro do armário e vislumbraram algo que me instigou: uma caixa de fotografias. Um parênteses: meu pai era proprietário de uma empresa de conserto de máquinas fotográficas, e o ofício nos rendeu, ao longo dos anos, uma herança invejável e incomum de fotografias, para aquela época. Isso explica talvez meu fascínio por fotografias. Não me contive, peguei a caixa de papelão como se fosse uma relíquia. Na primeira olhada, já era possível saber de quem eram as fotos. Não, eu não conhecia a pessoa. Mas concluí que as fotos só poderiam ser de um homem que figurava na maioria. E era possível também ver os diferentes momentos de vida dele, o cabelo mudando, o corpo, os cenários lindos frutos de inúmeras viagens. Não havia fotos com uma parceira ou parceiro, aniversários de crianças, e supus que ele não tinha filhos. Quantos anos ele teria hoje? Ou já teria morrido? Será que a minha vó Marieta estava certa sobre os espíritos dentro do armário? Quando fechei o armário, com aquela caixa de uma vida abandonada lá dentro, senti um pesar e um sentimento estranho. No outro dia, soube que ele já estava morto há alguns anos. Nunca me esqueci dos sentimentos que envolveram aquele momento. Difícil traduzir, mas era como ter a vida de alguém nas mãos e pensar...no nosso tempo aqui neste plano. Como sou espírita, e logicamente acredito na reencarnação, não foi difícil concluir que realmente não faria sentido algum vir até aqui apenas uma vez. A vida é um passeio de muitos flashes alguns ficarão materializados em fotografias, mas um espírito não se prende a imagens, muito menos dentro de armários.

Dinheiro Posto Fora

Nosso tempo vem sendo espremido pelo turbilhão de informações que não cessam, a medida que nos transforma em seres que seguem dezenas de processos, demandados pelo sistema consumista do qual fazemos parte. É fato, o consumismo vem nos consumindo. Exigindo uma série de ritos que ,além de nos escravizar em uma série infindável de etapas, nos ilude inflando nossos egos por sermos os melhores avaliadores de algo banal como uma secadora de pratos, um suporte de lâmpadas, um novelo de lã, uma panela de pressão. Com a ajuda da tecnologia, ampliamos nossa capacidade de perceber o despercebido no passado, se a gaveta era de mdf, madeira, 2 mm, 10 cm alt, com capacidade para 3 kg, se precisaria ou não de uma garantia estendida, a gente nem precisava saber de tudo isso! Somos um vendedor que vive no balcão à espera de mais um pedido. Que fará com que saiamos enlouquecidos pela loja repleta de prateleiras e produtos, tentando atender nosso pedido e realizar nosso sonho consumista. Me sinto uma especialista de quinquilharias que, daqui há um ano, é possível que nem funcionem, porque, a bem da verdade, é que essa especialidade também tem prazo de validade. É como correr uma maratona e, quando você chega na faixa de chegada, alguém vai lá e recoloca-a a 10 km de você, obrigando a busca do inatingível: a perfeição do custo benefício. Não é de se admirar que estejamos esgotados "sem ter feito nada"! O corpo parado frente à tela, nos ilude, enquanto isso o cérebro faz a consulta no Google para mais um item. A primeira frase da busca: "quais são melhores...", e lá vem uma lista de 10 itens. Cada um com uma indicação e mais um link com mais uns três links de 3 lojas para você comparar os preços. Depois de selecionar o the Best, você pode querer buscar um de valor melhor e se lança ao mundo das plataformas de vendas que, além de mostrar de 20 a 30 opções que te obrigam à próxima fase de detetive paranoico: olhar as avaliações. Mas, com o tempo, você já aprendeu a avaliar as avaliações, ou seja, você já percebe o que é fake, o que é do próprio vendedor e a quantidade necessária para considerar aquele produto bem avaliado. Calma, ser bem avaliado é ter um número de avaliações que te convençam de que o produto foi realmente avaliado por compradores. Se o produto atendeu a esses quesitos, agora é hora daquele momento fulgurante: analisar as avaliações para avaliar se você vai comprar um dos produtos daquela lista dos top 10 que você ainda não escolheu se realmente quer. Quando você clica nas estrelinhas, tudo que você quer é muito mais que testemunhos, você quer mais, quer ver imagens, mas o ápice será encontrar um vídeo do produto. Mas não parou aí; se possível, um vídeo do produto funcionando ou sendo mostrando em todos os ângulos, mesmo que o vendedor tenha feito isso na sua propaganda. Infelizmente, achei que ia finalizar esse cansativo processo aqui, mas não. Nosso vendedor, que se perdeu no fundo da loja esmiuçando detalhes e mais detalhes do produto até nos entregar no balcão, ainda não escolheu o melhor. Ele desconfiou que, apesar das 54 avaliações positivas do produto, uma avaliação pontuou com uma estrelinha e fez o seguinte comentário: dinheiro posto fora.