sábado, 1 de junho de 2024
O Bota-Fora da Enchente
Nos últimos tempos, tem-me chamado a atencao algumas expressões,que de certa forma são novas diante do último evento: a enchente.
Uma das expressões que rasgou meu ouvido foi o tal dia do
Bota-fora. O dia que o Prefeito mandou o povo colocar sua vida na rua sabendo que ia chover (foi ele que afirmou que sabia) e depois
o povo viu tudo boiando porque o caminhão não conseguiu retirar...
A expressão era
quase uma ofensa, até eu entender, parecia um desejo de que tudo fosse limpo, retirado logo da vista,
cabeça erguida em nome do mercado, aquele para o qual você deveria ter dado a
vida na pandemia. Era "o dia do bota-fora". Caso você não saiba é como chamamos,
a remoção de resíduos volumosos, sem utilidade para o munícipe-usuário e não
passíveis de remoção pela coleta de lixo regular em razão de suas dimensões
excessivas, tais como: móveis, colchões, madeiras e utensílios inutilizados. Bem
que poderiam dar um outro nome para este momento, para mim soou como: "lavou, tá
novo", levanta essa cabeça e bota fora! O dia do bota fora transformou tudo que
tinha valor há menos de um mês: em lixo. E todos repetiam que o lixo estava nas
ruas...que horror! Mas a verdade é que do dia para noite, os móveis da sala que
recebia amigos e a cama que acolhia o cansaço virou lixo. Antes memórias, fruto
de muito trabalho, presentes de pessoas queridas, produtos que gerariam renda,
empregos, insumos que se transformariam em alimentos, que gerariam sensações e
que fariam crianças sorrirem e pessoas confraternizarem... tudo isso agora era o
lixo para todo mundo ver e reclamar que estava na calçada e depois boiando,
atrapalhando o bueiro. Depois de dias na casa de um familiar, ou num abrigo, ou
longe da sua cidade, vendo notícias 24 horas, sem dormir; chorando perdas de
pessoas; vendo animais serem resgatados; assistindo a pontes caindo, cenários de
guerra, crianças perdidas...mortes. Depois de tudo isso, você é convidado a
retirar o lixo de dentro da sua casa. Sim! O teu Lixo agora vai viralizar! Vai
para o Instagram, vai virar uma foto feia ou um vídeo editado com uma linda
trilha sonora melancólica com 150 mil visualizações. Ou aquela trilha
inspiradora para que você se sinta mais forte e erga a cabeça e reconstrua,
porque você não tem outra opção... Luto meus caros, estamos falando de luto. E
há que ter respeito, porque cada um sabe o custo emocional e material desta
tragédia. O repertório de esperança agora é evocado tentando gerar uma estrutura
necessária para prosseguir. Mas não se faz isso com um golpe certeiro, depois de
anos de trabalho e de construção. Assim como fizeram com a passarela de anos,
onde foi construído um “ Corredor Humanitário"... percebem? Outro nome que me
incomoda, deveras altruísta e poético diante das negligências e do desrespeito
com a população de Porto Alegre e das cidades que tiveram diques rompidos e 1
mês de enchente. Vivemos por dias no terror de águas que poderiam vir de todas
as partes: do Guaíba, do arroio, do bueiro, da chuva, do dique, do
deslizamento... ninguém dormiu. E quando a imagem do gaúcho altivo pretende a
reconstrução, esse nome que se dá ao momento também me incomoda... Não seria o
momento de falar em RECONCILIAÇÃO? Não seria o nome mais apropriado para evocar
mudanças e ações que pudessem reconfigurar nossas cidades para que se tornem
mais resilientes e se reconciliem com a natureza? Precisamos estar mais atentos
à sutileza que forjam uma elaboração coletiva, que ainda está sendo processada.
Por fim, desejo um "bota-fora" num outro sentido da expressão. Uma despedida de
nós como cidadãos porto-alegrenses. de tudo que fomos até agora, a cidade
precisa de nós, e nós somos a cidade. E que cidade volte a ser Alegre novamente,
mas jamais se esqueça que foi um Porto.
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