quinta-feira, 29 de maio de 2014

Bubbles

Peter Van Pels e Anne Frank
Será que um dia esqueceremos o verdadeiro encontro?
Hoje eu realmente me preocupo muito com este assunto. Mas admito que na minha adolescência, esta era a menor das minhas preocupações...

Aos 13 anos, eu teria o meu primeiro encontro com um livro, “O Diário de Anne Frank”. Anne tinha 13 anos quando começou a escrever seu diário, infelizmente numa condição inóspita de confinamento na Segunda Guerra Mundial. Passados mais de quarenta anos, quem diria que eu e Anne nos tornaríamos cúmplices do mesmo amor? Enquanto ela descrevia sobre o seu amor por Peter, eu me apaixonaria por aquele menino do livro que surpreendentemente eu encontraria nos corredores da minha escola nos anos 80!

Não foi difícil reconhecê-lo, mesmo porque Anne o havia descrito minuciosamente para mim: "Ele tinha cabelos escuros, olhos castanhos lindos, bochechas rosadas e um nariz encantadoramente pontiagudo”.
E lá estava Peter ao alcance dos meus olhos e do meu coração. Peter nunca soube da minha existência, até porque não era necessário, ele já existia para mim, mas no fundo sempre foi de Anne...
David Vetter
Muitos meses se passaram entre olhares jamais correspondidos.

Sem que eu soubesse, naquele mesmo ano de 1983, os pais de David Vetter, lutavam para manter o filho vivo. Após 12 anos confinado em uma bolha de plástico, que o mantinha livre de contaminações, os médicos vislumbraram uma alternativa de cura para sua doença.  David nasceu com uma deficiência imunológica rara.  Em 1984, fez um transplante de medula dentro da bolha, mas devido a complicações em seu pós- operatório, foi retirado da bolha e acabou morrendo.

Infelizmente, a vida não imitou a arte.

Quando David tinha 4 anos, sua  história já era conhecida e  inspirou um filme marcante nos anos 70,  “O menino da bolha de plástico”. Apesar de uma história tocante e triste, o menino Tod,  interpretado pelo estreante, John Travolta, consegue sobreviver na bolha até a adolescência e apaixona-se pela sua vizinha, razão pela qual deseja viver em sociedade.

Assistindo a uma reportagem do ano de 1976, sobre o caso de David, um médico responsável pelo caso, chamou a bolha de plástico de David de “ilha da vida”.

Ilha da vida? Segurei a expressão e não consegui largá-la.
Conforme relatos daquela época, na verdade o menino temia sair da bolha e morrer e, na puberdade já começava a  apresentar  um comportamento de revolta pela sua condição.

Se pensarmos, Anne Frank também viveu confinada numa espécie de bolha quase que inevitável.   Ambos estiveram confinados em bolhas de proteção contra a morte, mas que na realidade os impediram de viver.
Não tenho dúvidas de que meu amor platônico serviu de ensaio para os amores reais.

Mas e o nosso adolescente “new platonista” da era virtual, teria a mesma sorte de encontrar seu amor virtual nos corredores da escola?

O que dizer do adulto em tempos de múltipla escolha?
Teria coragem de romper a bolha que lhe garante plena autonomia?
E aqueles que se mantêm unidos, coabitando em suas bolhas high tech, estariam  livres das “contaminações” do cotidiano?

É inquestionável que as bolhas de Anne e David os mantiveram vivos, mas essas supostas proteções estão longe de serem chamadas de “Ilhas da Vida”.
Infelizmente, as bolhas não os preparam para a vida, apenas adiaram seus finais.
A morte para Anne, Peter e David ocorreu fora da bolha, mas isso não é regra.
Hoje o que me impressiona são as bolhas autofágicas que se encerram em caracteres digitados e imagens alteradas. Será que um dia esqueceremos o toque da pele? Como lembrar algo nunca vivido?
O virtual nunca substituirá o toque, o calor do rubor e o frio na barriga que invade pela lembrança do amor presenciado.

Exaurida de tantas bolhas de plástico, preferi me lembrar das bolhas de sabão! Que bom poder recordá-las! Bolhas feitas de fluidos. Bolhas de ar, leveza e colorido. Bolhas que se elevam! Bolhas fugazes que brilham e explodem no tempo e no ar. Bolhas que se multiplicam! Bolhas que surgem de um sopro de vida. Bolhas que nascem do sopro no ar!



domingo, 16 de março de 2014

Planeta das Beldades


Imaginem a cena: mulher linda atravessando a rua, vestida com uma roupa impecável, cabelos bem cuidados, pele bonita, maquiagem perfeita. Ela faz  menção de atravessar a rua, olha para o sinal, desiste e perde-se no próprio olhar. Antes de eu passar com meu carro, verifico a dissonância daquele olhar e concluo a meu modo:
“Mulher bonita não combina com um olhar triste”.
Ok! Me dê alguns minutos para que eu me explique.
Imagine um planeta cheio de beldades se sentindo feias. Magras se sentindo gordas, jovens se sentindo velhas, espertas se sentindo tolas.  Enfim, todas se sentindo insatisfeitas consigo. Comecei a acreditar que vivo nesse planeta, o qual, segundo alguns homens de outros planetas, as beldades brotam da terra!Dizem que há mais mulheres  do que  homens, mas já me disseram que o problema é que eles morrem em massa entre 18 a 25 anos.  O resultado dessa desigualdade, é que lá na frente teremos 10, 15 ou até mais mulheres para cada homem. Eu particularmente não acredito nesse  “termômetro da noite” ,  pois é inegável que as mulheres são mais sociáveis, gostam de se reunir, portanto, vão se encontrar inevitavelmente aos bandos na noite.
Enquanto isso, e em menor número, os homens saem menos, são mais tímidos. Além disso, contam com o consolador “PFC”,  Playstation, Futebol e Churrasco.
Mas e as beldades? Creio que vivem  num contexto de tragédias confluentes: lindas subnutridas de espelhos quebrados X bonitinhos supernutridos de espelhos distorcidos.
O planeta das beldades vive repleto de insatisfações balizadas por modelos tão conservadores que, na menor das desilusões, lá está um corpo feminino jogado na primeira lixeira da esquina.
Mulher bonita  nesse planeta, em geral, tem uma péssima autoestima!
Enquanto isso os machos no planeta das beldades elevam seu passe de todas as formas. O   gordo, o velho, o tolo, todos pegam! E se pegam, para que esforço? Oferta grande, preços baixos, consumidores empapuçados! Apesar do mercado aquecido, ainda topamos com alguns caprichos, como a importação do recato.
Em resumo, não basta ser bela, é bom ser quase uma virgem.  Ah, não estão acreditando? Um dia escutei de um rapaz de 30 anos o seguinte: aqui (na capital das Beldades) as mulheres não valem nada! No interior, elas são mais recatadas...
Quanta bobagem!
O panorama é o seguinte, algumas exigem muito, outros exigem mais do que realmente podem bancar, e outras não exigem nada! Aquelas que não exigem, inflacionam  o mercado e impõem um jogo que ainda não tem uma regra clara.
Mas e os impactos desse contexto? Alguns efeitos dessa dissonância são visíveis, homens pouco vaidosos e mulheres biônicas gastando os tubos no salão de beleza. Algumas desesperadas;  outros confusos e inseguros. Uns tontos, se perdendo de tanta oferta, mal degustando, mal conhecendo e prontos para o descarte. Elas distorcem, se humilham, se vingam,  se desvalorizam e, com o tempo, vão entristecendo o olhar.
No planeta das beldades, a disputa acaba com as amizades entre as mulheres e, sobretudo, acaba com o amor próprio.
O problema é que muitas beldades desesperadas se lixam para a ética! Passam por cima das amigas e não vêem diferença entre homens solteiros e casados.
Pobre de algumas beldades, agonizando nesse planeta desigual!
O espelho da beldade mostra tudo, mas não convence. A cada lugar uma beldade mais linda, mais perfeita.
E como explicar que a mais linda de todas as beldades se sinta sozinha? Tadinha, esmola, quando é demais, o santo desconfia, e o pior, o santo não  banca.
Viver no planeta das beldades sendo mediana arrumadinha é como ser a mulher invisível daquele filme brasileiro, com a vantagem de que o protagonista nem precisaria se esforçar muito para imaginar. Aliás, se ele se esforçasse um pouquinho, certamente teria que fugir para debaixo da cama, pois não daria conta da multidão de mulheres invisíveis...
Ah! Boa pergunta! Será que eles estariam dando conta dessa multidão?


Uma Rua e Cem saídas



 se 

Uma Rua e Cem Saídas
Cláudia Coelho
Final de semana passado, eu dirigia rumo ao aeroporto e percebi uma cena inquietante. Havia famílias reunidas no meio-fio do corredor de ônibus, algumas crianças andando de bicicleta, mulheres e homens correndo no asfalto. Bacana essa cena, não fosse o local! Um corredor de ônibus fechado disponibilizando aos frequentadores daquela área nada mais do que o asfalto, monóxido de carbono, pista livre e segura aos pedestres. E, como se não bastasse, “um lugar ao sol” àqueles que pretendiam se bronzear.
Fiquei imaginando uma daquelas pessoas descrevendo o seu final de semana:  “ Foi superbom lá no corredor de ônibus, nos divertimos muito!”. Mas será que elas não teriam alternativa melhor? Pela  lógica, aqueles que possuem melhor poder aquisitivo deveriam ter mais opções de  lazer. Como alguém que mora num bairro nobre de Porto Alegre poderia se contentar em passear num corredor de ônibus aspirando monóxido de carbono? Nem em São Paulo eu aceitaria essa opção.
Eu me vi sem saída para explicar aquele fenômeno e me reportei imediatamente à Rua C, como era chamada nas décadas de 70 e 80. Ainda pode-se dizer que é uma rua tranquila, mas era muito mais no passado. Ao contrário daquele corredor de ônibus cravado numa avenida tumultuada, a Rua C oferecia  um sem número de possibilidades e entretenimentos. 
A Rua era tão pacata que estendíamos uma rede de vôlei de uma calçada a outra. O jogo de taco também era realizado com latas de azeite enfiadas nos pequeninos buracos da rua. Ao fundo, tínhamos uma espécie de parquinho natural, era uma “saibreira” que acolhia nossas expedições em grupos, além de muitas histórias misteriosas relembradas até hoje.
À noite, a Rua C abrigava penumbras mágicas perfeitas para o esconde-esconde. Os patins viravam sapato e tinham as rodas desgastadas das calçadas inapropriadas, mas que eram perfeitas para as meninas jogarem sapata.  A brincadeira de corda não podia ser melhor quando espichávamos a corda de uma calçada a outra e rolávamos de rir quando o foguinho testava os mais rápidos no pulo.  A Rua C adorava ver crianças  jogando  bola e passeando de bicicleta com cata-ventos de seringueira pendurados no guidão. 
Dia de chuva não podia ser melhor, tomar banho de chuva, escorregar nos pisos lisos das casas, dar risada dos tombos, torcer para a rua alagar! E, quando a chuva parava, a brincadeira seguia. Corríamos para os filetes de água no meio-fio da calçada com nossos barquinhos de papel para ver quem chegava primeiro no bueiro insólito.
A Rua C não cabia no calendário de tantos aniversários, e, para sorte da criançada, as quituteiras da rua sempre foram maravilhosas. O barulho das festas na rua nunca foi motivo de desavença, até porque  os vizinhos sabiam que, no futuro, também fariam seu barulho de festa, sempre foi assim.
A Rua sem saída era uma rua que acolhia diferenças sociais, dramas familiares, mas também muitos amores. Amores juvenis livres de qualquer preconceito, amores que  viraram casamento e outros que não passaram de um beijo.
A Rua C, não julgava, mas, por vezes, se ressentia com a severidade de alguns pais e com a indolência de alguns filhos.
Mas a Rua C também chorou muitas vezes.  Apesar de ser uma rua de paralelepípedos desiguais, o trânsito, sem cintos e muito álcool, tirou a vida de muitos amigos. A Rua C lutou pela vida de muitos que se acidentaram, e venceu,  mas perdeu  quando a medicina ainda não encontrava a cura. 
A Rua C debutou com as meninas que se tornavam mulheres. E vibrou com as labaredas das fogueiras de São João e a dança do pau de fita nas escolas da redondeza.
Alguns podem achar  que essa rua nunca existiu, pois eu a vejo dessa forma. E hoje, de fato, ela não existe mais, a Rua C ganhou um nome difícil de um ilustre médico, mas pouco conhecido. Ao contrário da Rua C, de tão escondida, parece ficar na memória de quem a conheceu: “Ah! Aquela Rua sem saída?”.  
Sem saída? Creio que não. A Rua C ofertou cem saídas para suas crianças, mil maneiras de ensinar seus adolescentes e infinitas formas de se reinventar para os seus adultos e idosos.
Eu confesso que, na minha infância, sempre sonhei que a Rua C só iria crescer quando fosse asfaltada, mas isso nunca aconteceu.  Mas, se essa rua fosse minha...
“ Eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes...”